22.2.11

Cromos que não descolam

Guardo memórias muito positivas das cadernetas de cromos que coleccionei, há muitos anos atrás.
Recordo-me que, em qualquer caderneta, existiam, sempre, alguns cromos mais raros e que dificultavam o finalizar da colecção: eram cromos raros, mas, bons.
Quando a infância e a adolescência se fartaram de mim, essas cadernetas sumiram da minha vista.
O estranho é que, à medida que isso foi acontecendo, os cromos de papel foram sendo substituídos pelos cromos de carne e osso.
Dizer que Portugal é um pais com muitos cromos, não é novidade para ninguém.
A música, então, é um mundo cheio de cromos…
Sem esquecer os cromos que existem em maior fartura (organizações “manhosas”, intermediários “duvidosos”, etc, etc, etc…), tenho especial aversão a uns, em particular.
Refiro-me aos maus críticos, àqueles que escrevem umas coisas e que destroem outras.
Julgo que todos os trabalhos musicais merecem respeito, mesmo aqueles que são, na minha visão, muito maus.
Ao analisar um novo álbum, é essencial saber “escutar” e saber “avaliar”. Depois, é necessário ter a arte, a sensibilidade e o engenho de colocar, no papel, uma opinião sólida, válida e honesta sobre esse CD.
Redigir críticas discográficas às dúzias, enquanto se realizam reportagens de concertos e entrevistas avulsas, não pode possibilitar tempo suficiente para uma audição de todos os CD’s, sobre os quais se devem emitir opiniões. Nem permitirá que o crítico escute trabalhos anteriores do artista em questão ou que se documente sobre o mesmo, numa busca de informação e de contextualização musical.
Qualquer artista, mais jovem ou veterano, pode ver a sua carreira em cheque por uma crítica menos séria.
O que me preocupa não são as opiniões lúcidas e correctas, negativas ou positivas, mas, tão só, a falta de profissionalismo e de respeito como muitas outras são feitas.
Dizer que um artista veterano está “senil” ou que um grupo novo “devia ir trabalhar nas obras” são opiniões que não pertencem à categoria de “crítica discográfica”.
Seria interessante verificar que formação e conhecimentos musicais possuem tais pessoas…
Pessoas, que aparecem vindas do vazio e que acabam por desaparecer, deixando mau rasto…
Isto porque uma análise negativa, apresentada de uma forma destrutiva, num jornal de grande âmbito, pode ser motivo suficiente para que um grupo, numa primeira edição, veja a sua vida desaparecer.
Estes são os cromos que prejudicam qualquer colecção.
E, ao contrário dos que tinha de colar nas cadernetas, são frequentes e maus.

09 de Outubro de 2003, originalmente publicado no blogue "Canal Maldito".

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21.2.11

O Rock nasceu do sangue

Os escravos podem ser julgados, vendidos, alugados, avaliados, sentenciados como sendo bens móveis na mão dos seus senhores e donos, ou dos seus carrascos, administradores e procuradores, qualquer que seja a finalidade, construção ou propósito.
Código Civil da Carolina do Sul, século XIX

Para conhecer a essência do Rock’n’Roll, temos de partir desta realidade.
Vindos de África e transportados em condições inacreditáveis, chegaram, à América, mais de dois milhões de escravos, entre 1680 e 1786.
Estes escravos trouxeram consigo a música e a tradição dos seus antepassados e seria este o embrião para o surgimento da música afro-americana, que havia de transformar o mundo musical do século XX.
Os Blues nascem nas canções de trabalho dos escravos, não podendo ser uma música alegre e feliz.
São músicas tristes, melancólicas e sofredoras, mas, simultaneamente, imaginativas, tanto na forma como no conteúdo.
Após a abolição da escravatura, as canções de trabalho perdem significado e os Blues destacam-se.
Retratam episódios concretos da existência humana: a vida, a morte, o ódio, o amor, o medo, a solidão, a angústia, o ciúme... percorrem sons pungentes, soltam gritos da alma, que ecoam e sublinham quotidianos e emoções, que lhes dão força e que lhes dão voz...
Música negra na sua origem, os Blues não são exclusivo de uma raça, sendo comungada por muitos brancos que lutaram e morreram ao lado dos negros, em prol de ideais comuns de liberdade.
Quem não entender os Blues, nunca poderá entender o Jazz nem o Rock!

O espírito do Rock tem estado presente em diversos projectos musicais, desde 1955, que inovaram e que projectaram novos movimentos sociais e culturais.
Little Richard, Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Doors ou Bruce Springsteen são exemplos de irreverência, de rebeldia, de inovação e de revolução no “status quo” instalado.
Esta é a razão de ser do Rock, mas, desde cedo, a indústria e os “comerciantes” viram, neste “produto”, uma forma de ganhar (muito) dinheiro.
Muitos projectos e grupos foram “inventados” pela indústria, numa perspectiva meramente comercial, subvertendo, por dentro, o real significado de um movimento que nasceu de uma forma ingénua, espontânea e imparável.

Em Portugal, a revolução dos cravos, em 1974, põe fim a um regime de ditadura.
As canções de intervenção – censuradas, até então – passam a dominar as ondas hertzianas.
Os jovens vivem e lutam no seio de uma sociedade em ebulição.
A instabilidade agrava problemas sociais, cada vez mais complexos, greves, inflação, taxas de juro elevadas, falências e desemprego; a juventude mergulha em experiências diversas: o álcool, a droga, a violência e a marginalidade suburbana.
Surgem grupos musicais, fartos da ditadura imposta pelas canções de intervenção, com retratos do seu inconformismo.
25 anos depois de “Rock Around The Clock”, tivemos, em Portugal, o “boom” do rock português.
Finalmente, o rock aparecia cantado na nossa língua e com grandes sucessos.
Rui Veloso, UHF, Taxi, GNR, Ja’fumega e Salada de Frutas mostravam várias imagens de um mesmo filme.
Questões sociais eram abordadas com maior ou menor profundidade, mas no ritmo certo da dança redentora.
A agitação de 80 conduz à depressão de 82 e a uma certa sustentação, anos depois.
Tudo existe porque “existiu” um “boom”.
Contudo, permanecemos com um atraso significativo em relação ao exterior...
Lá fora, em 2003, o meio musical é mais maduro.
Cá e lá, os Rolling Stones enchem estádios e ninguém se preocupa com a sua idade.
Por cá, os GNR ou os UHF são esquecidos para Festivais de Verão ou para concertos de grande dimensão.
Lá e cá, Bruce Springsteen é capa de jornais e revistas.
Por aqui, ninguém se recorda da última vez em que os UHF foram capa no Blitz.
Lá fora, Bob Dylan é falado para Nobel da Literatura.
Por cá, António Manuel Ribeiro é um poeta marginal, numa sociedade sem alma, sem causas, sem rumo.
Uma sociedade que prefere ser acéfala, fugindo da revolução que fervilha em vulcão fumegante.


17 de Setembro de 2003, originalmente publicado no blogue "Canal Maldito".

Link para post original.

20.2.11

Santiago do Cacém na "France Catholique"

Uma das mais importantes revistas francesas no âmbito da cultura e da religião, "France Catholique", dedicou na sua edição de Janeiro de 2011, um extenso artigo ao tema de Santiago Mata-mouros em que é feita pormenorizada referência a Santiago do Cacém e ao alto-relevo de “Santiago combatendo os Mouros” da igreja matriz, incluindo duas fotografias desta peça e, ainda, a reprodução do antigo brasão da cidade de Santiago do Cacém.

Registo com grande satisfação que tenha sido dado o maior destaque a Santiago do Cacém, cidade já reconhecida pelas instituições francesas como uma referência no Caminho de Santiago.

A revista "France Catholique" tem extensíssima difusão e é muito lida e respeitada no âmbito francófono, o que não deixará de trazer reflexos importantes à nossa região. Todo este gigantesco trabalho do meu grande amigo, Prof. José António Falcão, e do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja tem sido coroado com significativas vitórias para a nossa região e para Santiago.





1.11.10

Xupetas & Fraldinhas

Pela primeira vez encontra-se disponível no Youtube um tema dos santiaguenses Xupetas & Fraldinhas. A gravação foi feita com um gravador de cassetes em pleno boom do rock português e permite um mergulhar em muitas recordações do passado.


Link para texto sobre os Xupetas.

10.10.10

A última prova

UHF - Porquê? (2010)

Após a euforia dos anos loucos, com os jipes a tomarem conta de Portugal, numa corrida ao novo “el dorado” em que o dinheiro fácil de Bruxelas foi pródigo, vivemos anos sucessivamente complicados numa sequência que já ultrapassa uma década de cinzentismo. Os sacrifícios vão aumentando – vão aumentar – e a Europa, que nos encheu de dinheiro, nos fez esquecer os bons hábitos da poupança e nos injectou com vícios consumistas, está agora a exigir rigor enquanto os mais ricos se preparam para sugar tudo o que possam. Portugal, em momento dramático, vê o Banco Central Europeu a emprestar, aos bancos, dinheiro a 1% para, depois, esses mesmos bancos, tal agiotas, multiplicarem o rendimento, vendendo-nos a massa a 6%. É assim o inferno europeu, em que, depois de nos pagarem para não produzirmos ou para afundarmos barcos, nos querem deixar sem tanga e escanzelados. A crise chegou à economia, mas, já tinha entrado em áreas sensíveis. As nossas instituições estão descredibilizadas, decadentes, a Justiça é considerada injusta, pantanosa e o povo está farto, cansado, descrente e sem garra para enfrentar o abismo. O naufrágio português está à beirinha e os UHF deram um passo em frente, viajando pela dura realidade do presente, numa abordagem corajosa, destemida, sem papas na língua e adequada a um povo valente e imortal. Foi, aliás, uma gravação premonitória porque os trabalhos de estúdio decorreram ao longo de quase doze meses e a edição surge no exacto momento em que as medidas mais duras foram anunciadas pelo Governo. O efeito de “Porquê?” começa na música e termina em palavras como aquelas que serviram esta introdução.

O novo álbum de estúdio dos UHF quebra um jejum de cinco anos e consegue surpreender pela agressividade, variedade e forma como António Manuel Ribeiro regressa a um estilo de escrita musical de onde tinha semi-hibernado. Faz muito tempo que nenhum artista português se aventurava pela música interventiva, directa, sem refúgios de qualquer espécie. António Manuel Ribeiro deixou de lado alguma contenção e lançou-se numa epopeia em que recupera o dedo em riste, muito próprio dos seus primeiros tempos de compositor, e que lhe granjeou fãs aos rodos e inimigos em quantidade razoável e duradoira.

Ao longo das últimas décadas, o topo do rock português aburguesou-se, começou a comer nos melhores restaurantes, a vestir a melhor roupa, a aparecer nas revistas cor-de-rosa, a dormir em hotéis de 5 estrelas e passou a compor um roque queque para adolescentes bonitos e bem comportados. A situação não é exclusiva de Portugal, recordo-me dos problemas existenciais de Bruce Springsteen após o sucesso de “Born in USA” porque não se sentia confortável a falar da pobreza quando passara a ser rico. Mas, o “Boss” soube seguir o seu rumo. Como homem do rock não se resignou a ser um mero empregado da música. Foi assim que renasceu diversas vezes, uma das quais com o tocante “The Rising”. Em Portugal, temos artistas a lançarem umas bocas em concertos, a gritarem palavras ocas de ordem contra o Governo, seja ele qual for, porque é popular e dá jeito, e a elogiarem a Autarquia que os contratou, por valores obscenos, com o dinheiro dos impostos pagos por todos nós, deixando cair de podre a cultura e o património local.

Com “Porquê?” a revolução está próxima e, se existisse censura, este disco não tinha sido colocado à venda. E, para felicidade de alguns, António Manuel Ribeiro teria sido detido e interrogado. Ao contrário de muitas das recentes edições discográficas, em que o rock mergulhou na depressão nacional, “Porquê?” regressa ao espírito do rock puro e duro. A escrita das canções cruza momentos brilhantes em temas tão fortes como polémicos. Tudo normal. Não deve ser o rock intrinsecamente polémico, agitador, rebelde e provocador?

Poderia entrar numa descrição faixa-a-faixa, contudo, deixarei essa tarefa para quem consiga reduzir “Porque?” a um conjunto de 12 temas. Não o farei porque a essência é o álbum. Mesmo assim, não resisto a escrever a respeito de quase todas as músicas.

A surpresa de “Porquê?” começa logo na primeira faixa. “Nativos” é António Manuel Ribeiro como o imaginara num disco a solo, experimental, em tons independentes e alternativos. É ele próprio que toca percursão africana e uma enigmática percursão ameríndia cordame enquanto declama de forma intensa e furiosa que “se o coração conhece enganos / aceita a vida / sai da batalha”. O mote está dado com esta entrada enérgica e contundente. A canção seguinte descomprime o ambiente e liberta doses pop-rock com um riff de guitarra à UHF. “Viver para te ver” tem todas as condições para ser o novo single e entrar nas playlists das rádios. A letra é própria de tempos primaveris, a melodia é comercial e o refrão orelhudo.

Muitos daqueles que criticam os UHF não gostam que o grupo grave versões. Mais uma vez, deve ser uma idiossincrasia lusitana, pois, aceitamos bem que os artistas estrangeiros recuperem canções mais antigas, porém, quando em Portugal isso sucede os músicos são, geralmente, acusados de oportunismo, de ganância e de crises de criatividade. Conhecendo a realidade do meio musical português, esperava, apenas, uma versão neste CD, todavia, surpreendentemente, os UHF apresentam-nos duas. Tendo em conta o preconceito existente, admito que tive dúvidas sobre a pertinência de tal decisão, contudo, basta escutar o álbum para compreender a coerência da escolha. A versão para “Vejam bem” demonstra que UHF e as canções de José Afonso são uma óptima combinação. Já acontecera no passado e voltou a suceder. Um notório respeito pelo compositor, a forma emotiva como António Manuel Ribeiro a interpreta, uma guitarra límpida que poderia ser de Hank Marvin, enfim, uma obra de arte. Aposto que “Vejam bem” acabará por sair em single, pois, é impensável ter uma pérola destas num álbum e não a expor ao grande público. A outra versão já é sobejamente conhecida. “O vento mudou” colocou, novamente, na ribalta, um sucesso que tem tanto de antigo como de relevante. Eduardo Nascimento ficou emocionado e vimos Nuno Nazareth Fernandes, o compositor, com uma lágrima no canto do olho num espectáculo a que assistimos na FNAC de Almada. Portugal não pode ignorar a sua história musical continuando a valorizar, sobretudo, aquilo que vem lá de fora. A produção nacional dos últimos 60 anos é relevante e de enorme qualidade e urge voltar a descobrir as nossas cantigas. A recuperação de “O vento mudou” ou de “Vejam bem” é um acto cultural importante para um legado que deve ser redescoberto pelas novas gerações.

“Quero entrar em tua casa” é mais um tema rock com um refrão fortíssimo. Gosto particularmente da bateria do Ivan Cristiano e, talvez por outros sucessos passados, recordo o melhor de Zé Carvalho e de Luís Espírito Santo. Dei por mim, esta manhã, sem motivo aparente, a trautear este perigoso refrão.

“Porquê (português)” surge como a faixa 7 e duvido que seja um fruto do acaso essa numeração. São sete as cores do arco-íris, sete os sábios gregos, sete as virtudes humanas que a Filosofia identifica e sete os dias da semana que percorremos, freneticamente, em ciclos de rotação constante. “Porquê / é a pergunta / que o povo faz / com amargura” afirma António Manuel Ribeiro, enquanto discorre diversos porquês numa canção acutilante e de onde sobressai um ritmado lado acústico com recurso ao acordeão, pandeireta e clave. O refrão é poderoso e sintetiza um sentimento que trespassa toda a obra, “Porquê / outra vez / o naufrágio português”.

Depois… bem, depois temos uma sequência final de arrasar. “A última prova”, “Cai o Carmo e a Trindade” e “Acende um isqueiro” são três temas que nos transportam para outros tempos.

“Acende um isqueiro” podia pertencer a qualquer um dos primeiros trabalhos dos UHF e ganha uma dimensão épica quando a comparamos com a versão gravada no Coliseu de Lisboa. “Vim aqui para cantar / e para vos conhecer / receber o que o povo dá / se o artista merecer”. Os UHF transformaram um acústico intimista numa grande canção rock dedicada a todos aqueles que marcam presença nos concertos e onde António Manuel Ribeiro plana na música num ambiente próximo de Jim Morrison. O baixo de Fernando Rodrigues, algures no minuto 3:30, evoca-me recordações de Carlos Peres ou de Fernando Delaere.

“A última prova” é UHF vintage com a presença de um endiabrado HammondB3, pelas mãos do convidado Manuel Paulo, que nos conduz para uma identidade sonora que funde as raízes dos UHF com linhas clássicas de rock impar. Pedagogicamente, esta canção devia sair no formato de single para que os mais novos tenham contacto com a sonoridade UHF em estado puro. As guitarras de António Côrte-Real fazem a junção histórica de vários guitarristas que passaram pela banda e, mentalmente, vejo Renato Gomes, Rui Rodrigues ou Rui Dias. A avaliação do trabalho de uma banda também se faz pela recordação da sua história e António Côrte-Real tem um desempenho notável neste disco. É essencial que se compreenda que este pode ser um excelente álbum dos UHF, quiçá, talvez mesmo o melhor de todos, porém, isso só sucede porque esta formação está a tocar como nenhuma outra o fizera no passado. “Porquê?” é também um marco individual nas carreiras de Ivan Cristiano, Fernando Rodrigues e António Côrte-Real.

“Cai o Carmo e a Trindade” podia pertencer aos álbuns “Persona Non Grata” ou “À Flor da Pele”. A audição é obrigatória para todos os que gostam e para todos aqueles que detestam UHF. “Eles vão ficar à solta / foi tudo uma ilusão / a malha da rede é grossa” ou “Cai o Carmo e a Trindade / gente fina no pantanal / castos sem castidade / nada se passa de anormal / em Portugal” são, apenas, excertos de uma letra arrasadora e onde os UHF tocam, profundamente, na questão da justiça portuguesa e no facto de ninguém confiar na justiça que temos. A escrita terá sido inspirada no mediático processo “Casa Pia”?

Mas “Porquê?”, apesar da intensidade interventiva, transmite uma ideia de construção positiva do futuro. “Segue em frente / não olhes para trás”, “Não te vás abaixo / se o medo rondar”, “Portugal – somos nós / mil histórias de coragem” são somente alguns dos versos que entoam em “Portugal (somos sós)” a canção escolhida para encerrar este arrojado trabalho. Ainda antes do final do CD, surge um segmento da composição que inicia o álbum. A vida é feita de ciclos e os extremos acabam por se ir tocando mais do que se imagina. Este é, assim, um disco onde o “repeat” faz mais sentido do que numa obra normal. Os UHF deixam-nos essa mensagem de um final, que é, afinal, um novo começo. Não tem sido a carreira dos UHF um retrato fiel disso mesmo?

Comparar a qualidade entre discos espaçados por 20 ou 30 anos não é simples nem sequer aconselhável. A realidade do presente é muito diferente daquela que António Manuel Ribeiro viveu em 1980, 1987 ou 1993 e a tendência que temos é a de valorizar mais o passado e minimizar o presente. “Porquê?” pode não ser o melhor disco dos UHF, porém, andará lá perto. No mínimo, é o álbum com melhor produção da sua carreira, onde João Martins acrescenta valor, é o trabalho mais interventivo e aquele em que o balanço entre canções pop e rock melhor se faz, sem comprometer a qualidade e a coerência da obra. Este disco não é, apenas, um novo álbum dos UHF. É uma pedrada no charco do conformismo, da mediocridade, da falta de rumo que se sente em certos sectores da nossa sociedade. É um grito de revolta numa sociedade bastante diferente da existente em finais dos anos 70. Estará Portugal preparado para dar respostas a “Porquê?”?
Uma coisa é certa, os UHF, aqueles UHF que atingiram o estatuto de lendas do rock português, estão de regresso.

7.10.10

Carlos Bastos - Hey Jude

Participação de Carlos Bastos nos 25 anos da Febre de Sábado de manhã na Sala Tejo do Pavilhão Atlântico em 28 de Janeiro de 2006. Momento único de televisão com a célebre versão fado da canção "Hey Jude" dos Beatles.

3.10.10

Um mergulho nos UHF de 1992

Como terá sido o concerto dos UHF no Coliseu de Lisboa em 1992? Como resposta a esta pergunta, descobri uma peça arqueológica referente a esse espectáculo que decorreu a 7 de Fevereiro desse ano, que editei, para disponibilizar no blogue Canal Maldito, nas vésperas dos Coliseus que os UHF fizeram em 2006. Como curiosidade, deixo no final deste post alguns excertos dessas duas horas de programa de rádio - feito em directo.

Hoje em dia é normal bandas rock incluírem os Coliseus nas suas digressões, todavia, em 1992 tal não era frequente. Recordo-me bem desse concerto no Coliseu de Lisboa há catorze anos, quando os UHF convidaram Jorge Palma, Lena d'Água e Zé Pedro para participarem em cada um dos três actos que o espectáculo encerrava. Se bem me lembro o espectáculo estaria dividido em três andamentos: "a farsa", "o amor" e "o fogo".
Esse concerto correu muito bem, tendo constituído um ponto muito alto na carreira dos UHF.

Recordo também a véspera do concerto de Lisboa em que partilhei uma mesa de quatro lugares num restaurante próximo do Coliseu com António Manuel Ribeiro, Zé Pedro e Jorge Palma. Estavam, todos eles, entusiasmados com o evento e os dois convidados especiais preparavam-se para o ensaio que iria entrar pela madrugada. Como as coisas estavam atrasadas, ainda deu para uma passagem pela casa de Jorge Palma, onde, de volta de uma Ballantines 12 anos, foi possível ver um episódio dos Simpsons.

Antes de ter saído do Coliseu com o Jorge Palma, recolhi diversos apontamentos para o meu programa de rádio "Rock de cá". Por exemplo, o depoimento de Zé Pedro - muito interessante, esboçando um sorriso à pergunta se não estaria nos planos da sua banda a passagem pelo Coliseu dos Recreios. Que não, disse ele, pois uma sala como o Coliseu não seria propícia a concertos rock. Considerava que os UHF podiam apostar no Coliseu porque tinham muito mais canções calmas do que os Xutos. Actualmente, e depois de várias actuações dos Xutos neste recinto, a opinião de Zé Pedro pode parecer estranha, porém, quem se recorde do Portugal de 1992 sabe que, nesses tempos, não era habitual utilizar o Coliseu para concertos rock!

Foi também a curiosidade de ver um grupo de rock português no Coliseu de Lisboa que cativou a presença de muita gente. Ainda mais porque, na época, os UHF já eram considerados veteranos!

A verdade é que o concerto dos UHF não foi acústico, nem repleto de baladas, mas sim rock'n'roll à flor da pele e essa noite ficou na memória do rock português por mais outro motivo, directamente relacionado com a impreparação de concertos rock no Coliseu e com a força do próprio evento. Por certo, foi estabelecido um novo record de cadeiras partidas na mítica sala da Rua das Portas de Santo Antão! Não que o concerto tenha sido violento, pelo contrário, contudo, perante tanta gente aos saltos em cima de tão frágeis cadeiras, outro desfecho não seria previsível. Talvez quem tenha optado por não tirar as cadeiras da plateia tenha também conversado com Zé Pedro na véspera do concerto e deduzido que os UHF iriam fazer um concerto essencialmente acústico. Foram mais de cem as cadeiras aniquiladas pelo saudável rock dos UHF.

Naquela noite, quase tudo correu bem aos UHF. O clima da sala esteve ao rubro e as canções foram entoadas do início ao fim por uma audiência participativa e rendida. O som poderia ter estado melhor, porém a performance de músicos e convidados foi quase perfeita.

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Em alternativa pode fazer o download dos ficheiros para o seu computador. Para tal deve posicionar o cursor do rato no link desejado e clicar com o botão direito escolhendo a opção "save target as..."ou "save link as..." dependendo do browser utilizado.

16.9.10

Noites Ritual - A emissão



A 19ª edição do festival “Noites Ritual” decorreu nos dias 27 e 28 de Agosto de 2010, nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto. As duas noites deste acontecimento ficaram marcadas por duas enormes enchentes, tendo sido estabelecido novo record de assistência, o que demonstra que sucesso e qualidade são compatíveis quando nos referimos a música portuguesa. E mesmo quando os projectos participantes não são (ainda) monstros consagrados da nossa indústria.

Ao contrário do passado recente, este ano levei gravador e o Bruno pregou-me a partida de me desafiar a transformar umas entrevistas ligeiras e tranquilas num especial de duas horas. Foi com essa encomenda de “emissão especial realizada a partir do Porto” que parti em direcção ao Norte. Já em pleno backstage foi a minha vez de lançar a Pedro Brinca - antigo director da revista “Ritual” e apresentador oficial do festival - o desafio de me acompanhar nessa aventura e me ajudar na apresentação do programa.

Uma emissão com tantos participantes não poderia conter entrevistas muito prolongadas pelo que foi necessário apelar ao nosso esforço de contenção e síntese. Em alguns casos resultou e noutros nem tanto. Na verdade, ficaram muitos sons de fora da edição final e creio que o Atlântico irá aproveitar algumas dessas conversas, mais prolongadas, para especiais no decurso da época 2010/11.

Uma palavra final para a excelente organização e um abraço especial para o Carlos Vieira.

Para o ano, espero estar, de novo, no Porto para uma fantástica edição 20 das “Noites Ritual”. Existe o regresso de um grande grupo na forja para celebrar esse número mágico das 20 edições – para saber qual basta fazer download e escutar estas duas horas de emissão. :)

Para quem não escutou o programa em directo deixo os links para os ficheiros mp3 da primeira e segunda horas de emissão.


Clicar para escutar a 1ª hora de emissão.

Clicar para escutar a 2ª hora de emissão.

Em alternativa pode fazer o download dos ficheiros para o seu computador. Para tal deve posicionar o cursor do rato no link desejado e clicar com o botão direito escolhendo a opção "save target as..."ou "save link as..." dependendo do browser utilizado.

10.9.10

Especial Noites Ritual 2010

A Miróbriga num dos mais emblemáticos festivais de música!



Clicar para escutar.

Noites Ritual - quase 20 anos depois.



Tive o grato prazer de conduzir com Pedro Brinca, na cidade do Porto, uma emissão do Atlântico com grandes protagonistas:


















Rita Redshoes, Tornados, Diabo na Cruz, Oquestrada, Legendary Tigerman , Slimmy, Carlos Vieira e Sean Riley & The Slowriders.

Noites Ritual, o festival que apareceu poucos meses depois da primeira emissão da navegação e que tem descoberto grandes nomes e bandas... e que as pode voltar a reunir!

Atlântico - Sábado às 7 da tarde na Miróbriga - 102.7 Fm no sul do país ou em mirobriga.pt no mundo inteiro.

Um conceito de Rádio.

Atlântico também no facebook

24.7.10

Atlântico na América - A emissão

Existem programas que ultrapassam o inicialmente previsto e que parecem ganhar vida e vontade próprias. Foi exactamente isso que sucedeu na emissão de hoje do Atlântico, a qual, tendo como mote o livro de Luís Mira, foi totalmente dedicada à América.

Para todos aqueles que não conseguiram escutar o programa em directo deixo os links para os ficheiros mp3 da primeira e segunda horas de emissão.


Clicar para escutar a 1ª hora de emissão.

Clicar para escutar a 2ª hora de emissão.

Em alternativa pode fazer o download dos ficheiros para o seu computador. Para tal deve posicionar o cursor do rato no link desejado e clicar com o botão direito escolhendo a opção "save target as..."ou "save link as..." dependendo do browser utilizado.

23.7.10

Atlântico na América

"Finalmente" talvez seja a palavra certa para definir o post que aqui deixo. Depois de muitas gravações e peripécias de diversa ordem irá para o ar, amanhã, sábado, um Atlântico bastante especial. Serão duas horas dedicadas à América numa emissão centrada no livro de Luís Mira, "Crónicas da América".

Pelo Atântico irão passar vários convidados, entre os quais, Luís Pinheiro de Almeida, Teresa Leandro, José Marques, Abel Rosa, Luís Mira, António Manuel Ribeiro e Teresa Lage.

Entre as 19h00 e as 21h00 numa emissão que pode ser seguida pela internet através do site da Miróbriga.

Foi com enorme prazer que fiz este programa em conjunto com o Bruno.

Mais informações: Atlântico









9.7.10

Rock português em selos

Alguns dos mais importantes discos do rock português foram escolhidos para uma edição especial de selos dos CTT.

As estampas reproduzem as capas de "A Lenda de El-Rei D. Sebastião" (Quarteto 1111), "Ar de Rock" (Rui Veloso), "Psicopátria" (GNR), "À Flor da Pele" (UHF), "88" (Xutos & Pontapés), "Heróis do Mar" (Heróis do Mar) e "Wolfheart" (Moonspell).

Estes selos, de 1 € cada, estarão disponíveis a partir de dia 19 de Julho e podem ser utilizados como qualquer selo normal para envio de correspondência.

27.6.10

Michael Jackson no VH1

No VH1, este fim-de-semana é dedicado ao Rei da Pop. Faz sentido a homenagem, depois de Michael Jackson ter sido o primeiro artista negro a passar na MTV com "Billie Jean".

25.6.10

Um ano sem Michael Jackson

Durante aquelas semanas em que estive em Israel levantei-me quase sempre à mesma hora. Passavam uns minutos das 7h30 e enquanto me despachava liguei o meu portátil. Cliquei no site da TSF e preparava-me para tomar o pequeno-almoço. Quando abriu o noticiário das seis da manhã, em Portugal, a notícia foi um choque. Michael Jackson tinha morrido.
Ao sair de casa, o amigo que me veio buscar tinha o rádio do seu carro sintonizado, naturalmente, numa estação israelita e apesar de nada entender da língua, pouco depois, eram canções de Jackson que eram transmitidas.
Dias depois, os canais de televisão locais, emitiram as cerimónias fúnebres, tal como deve ter sucedido em Portugal e um pouco por todo o lado.
O fenómeno do rei da pop, tinha e tem, uma dimensão planetária.
Recordo-me de ter estado nos anos 90 numa workshop com Jennifer Batten, guitarrista de Michael Jackson, a qual, no meio de algumas dezenas de pessoas não se esquivou a desmistificar muito daquilo que todos recebíamos como sendo verdadeiro. A história das lendas da música sempre se fez com muito exagero da realidade e Jackson era um perito nessa arte, tanto para o bem como, mais tarde, para o mal.
Nunca fui um fã de Michael Jackson, mas, sempre segui a sua carreira com interesse e curiosidade. E, admito, com alguma dose de admiração pelo artista único que ele foi. Também sinto interesse em conhecer alguma da obra que está gravada e que irá ser editada ao longo dos próximos anos ou décadas. Só espero que não se chegue ao ponto de se editar tudo, mesmo aquelas coisas que Michael Jackson só não jogou para o lixo porque não sabia que iria morrer nesse dia 25 de Junho de 2009.

Como recordação fugi dos grandes êxitos dos anos 80 e optei por "Earth Song". Uma grande canção e um soberbo vídeo.

21.6.10

Seth Lakeman - Hearts & Minds

"Hearts & Minds" - o novo álbum de Seth Lakeman - está quase a ser editado e esta sonoridade folk agrada-me bastante!

20.6.10

Steve Miller Band - Abracadabra

Num momento em que o novo álbum já foi editado aqui fica uma recordação numa versão ao vivo. Destaque para o diálogo entre Steve Miller e Carlos Reyes.

17.6.10

I Am Kloot - Northern Skies

I Am Kloot em "Northern Skies" com participação de Christopher Eccleston. Este tema pertence ao novo álbum, "Sky At Night", que vai ser editado a 5 de Julho.

16.6.10

2 semanas de conversa


A participação no Atlântico de Bruno Gonçalves Pereira tem sido uma constante ao longo destes anos. Apesar de gostar de realizar os meus próprios programas, na verdade, guardo excelentes recordações das colaborações com o Bruno. Por vezes, a participação surge por convite, noutros casos porque proponho alguma ideia e, noutras ocasiões, a situação surge no próprio momento. Foi esta última hipótese que esteve na origem das gravações que conduziram às recentes emissões do Atlântico em 5 e 12 de Junho. A causa desse encontro esteve ligada à preparação de um especial do programa – em breve, o Bruno divulgará mais detalhes – e não me poderia esquivar ao desafio, sempre directo e frontal, de conversarmos sobre uns temas da actualidade. No fundo, a actualidade esteve a pairar na conversa, mas, sem as preocupações próprias e formais, às quais, e bem, os comentadores nos habituam. Mais do que um comentário, o que aconteceu foi uma conversa que agora disponibilizamos numa versão compacta.

Clicar para escutar o compacto da conversa.

Em alternativa pode fazer o download do ficheiro para o seu computador. Para tal deve posicionar o cursor do rato no link desejado e clicar com o botão direito escolhendo a opção "save target as..."ou "save link as..." dependendo do browser utilizado.

15.6.10

Steve Miller regressou a estúdio 17 anos depois

The Steve Miller Band têm álbum novo a partir de hoje.

17 anos depois de "Wide River", "Bingo!" é constituído por 10 clássicos de blues e R&B sendo facilmente reconhecíveis as mãos e os dedos de Steve Miller. Além da edição normal existe ainda uma edição especial que inclui mais quatro temas. Este trabalho vai ser acompanhado por uma digressão que apesar de passar pela Europa não irá incluir Portugal.

stevemillerband.com



Taxi - Portugal

Uma "Chiclete" é bem melhor e faz menos barulho do que as vuvuzelas. O nosso mundial não começou muito bem, mas, vamos acreditar! Este "Portugal" é uma nova versão do clássico de 1981, "Chiclete", pelos próprios Taxi.

14.6.10

Tired Pony - Dead American Writers

"Tired Pony" é um grupo constituido por Gary Lightbody, Richard Colburn, Iain Archer, Jacknife Lee, Peter Buck, Scott McCaughey e Troy Stewart. Apaixonados pela country-music estiveram em Portland (Oregon) a gravar o álbum que vai sair em 12 de Julho. Fica aqui uma amostra audio do tema "Dead American Writers".

19.4.10

Crónicas da América

O livro "Crónicas da América", de Luís Mira, foi apresentado no sábado passado na Livraria Buchholz, em Lisboa. Esta obra junta as diversas crónicas que foram sendo divulgadas no blogue "Ié-Ié".

Este trabalho remete-nos para as memórias da música e do cinema numa nova visita pelos espaços onde tudo aconteceu. Em breve mais novidades sobre este livro.

2.2.10

João Aguardela faria hoje 41 anos

Foto da autoria de Rita Carmo, Fevereiro 2006
João Aguardela faria hoje 41 anos. Como pequena homenagem decidi recuperar o meu post de 19 de Fevereiro de 2009.


Dias intensos com noites de glória

1992 foi o ano dos Sitiados.

O panorama da música moderna em Portugal estava em grande, com a construção do catálogo nacional da BMG que viria a gravar diversos grupos e que contribuiu, decisivamente, para um dos fenómenos da nossa indústria nos anos 90.

Conheci alguns dos elementos dos Sitiados no decurso da Conferência de Imprensa que a R&B promoveu a propósito dos concertos dos UHF nos Coliseus de Lisboa e Porto, em Fevereiro de 1992. Com o disco a sair poucos dias depois dos Coliseus, a BMG não perdeu a oportunidade que a visibilidade deste evento possibilitaria.

A conversa que mantive nessa tarde com João Aguardela e com Sandra Baptista foi curta, mas ficaram estabelecidos os laços suficientes para que, ao longo desse ano, convivesse com eles noutros momentos. Recordo-me de uma entrevista em directo no “Rock de cá”, nos estúdios da Miróbriga, no dia em que Sitiados arrasaram no recinto da Feira, em Santiago do Cacém; recordo-me de termos estado na Sociedade Harmonia a jogar bilhar e, mais tarde, de termos terminado a noite nos “Dias Atlânticos”, até horas que roçaram o amanhecer. Recordo-me de ir ter com eles a uma vivenda na zona do Restelo, numa fase posterior em que já estavam a ensaiar os temas do segundo álbum; recordo-me do jantar que se seguiu e dos projectos estruturados que existiam. E lembro-me da enorme consciência que João Aguardela sempre teve do “presente”, nunca entrando em deslumbramentos que o sucesso tantas vezes provoca.

Ainda antes de estar confirmado o concerto em Santiago do Cacém, em Maio de 1992, dediquei uma das emissões do “Rock de cá” aos Sitiados. Encontrei-me com João Aguardela na tarde do espectáculo que eles deram na Semana Académica de Lisboa. O encontro foi, novamente, bastante afável e, mesmo no meio do barulho próprio de um PA que debitava uns bons decibéis, tivemos uma conversa que procurou sintetizar toda a carreira dos Sitiados. Desde o seu início, passando pelo registo “A noite” e culminando nos 3 meses de edição do álbum. “Vida de marinheiro” era um sucesso crescente, mas ainda não era o êxito que, pouco depois, levaria os Sitiados a todas as terras de Portugal.
Enquanto registo histórico e como pequena e modesta homenagem a João Aguardela, disponibilizo a conversa que tivemos nessa tarde.

À noite, o concerto foi fantástico e com uma energia contagiante. João Aguardela sempre foi um caso único em palco. O tempo passou, o “Rock de cá” deu lugar a um programa de debates políticos, a seguir fui manager dos k2o3 e, mesmo por dentro do meio musical, acabei por distanciar-me de algumas amizades. Os anos 90 chegaram ao fim e os Sitiados também. Tenho saudades desses anos, dessa época e das pequenas histórias que tive o privilégio de viver na companhia de João Aguardela.

Clicar para escutar conversa com João Aguardela.

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25.1.10

Atlântico e White

ESPECIAL COM PEDRO DE FREITAS BRANCO

Pedro de Freitas Branco é um músico que tem passado ao lado de uma carreira diferente. As suas composições vão beber na essência da melhor música dos anos 60 e é conhecido pelo projecto “Pedro e os Apóstolos”.

“Mesmo Para Quem Não É Crente” (1996), “Momentos” (1998) e “Formigas em Férias” (2002) foram os álbuns editados com o carimbo da Vidisco. Muito por fruto de preconceitos em relação à editora que esteve por detrás destes lançamentos, o grupo nunca chegou a atingir o patamar que merecia.

Pedro de Freitas Branco tem mantido uma actividade intensa a outros níveis. Além de autor e guionista de televisão, é conhecido pela parceria que manteve com António Pinho na escrita da série juvenil “Os Super 4”, interrompida em 2005 com a sua ida para o Brasil. Dessa parceria nasceram 17 volumes, somando-se, ainda, os trabalhos “A vida em stéreo” e o romance policial “Segredo dos Beatles”.

Com uma herança genética como a dele, não podia deixar a música para trás. No Brasil, formou um novo projecto – “White”. Ainda sem edição em Portugal, o álbum de estreia “Rocking Land” esteve neste sábado em grande destaque no Atlântico.

Para todos aqueles que queiram conhecer esta nova fase na carreira de Pedro de Freitas Branco preparámos um compacto desta edição do Atlântico com toda a entrevista e algumas das novas composições.

Não posso terminar esta breve introdução sem agradecer a disponibilidade do Pedro, o qual, mesmo no meio de uma carregada agenda, numa curta passagem pelo nosso País, fez questão de marcar encontro comigo e com Bruno Gonçalves Pereira.

Recomendo uma audição atenta deste novo álbum e faço votos para que “White” deixe de ser um segredo tão bem guardado aqui por estas terras lusitanas.

Clicar para escutar o especial do Atlântico com Pedro de Freitas Branco.

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8.1.10

Andar para trás

A minha disponibilidade tem sido bastante limitada e a consequência mais evidente é a menor actividade deste blogue. Ter um blogue é quase o mesmo do que fazer rádio e nunca se consegue estar muito tempo ausente. O retomar de publicação está ligado a um email que recebi e sobre o qual não poderia ficar indiferente. Desde novo que a História e o património do concelho onde nasci e cresci me cativam e creio que só quem passou horas a fio no estudo apaixonado destas matérias ou com “as mãos na massa”, em actividades no terreno, conseguirá compreender, na sua plenitude, o que sinto a este respeito.

Não subsistem dúvidas que existem pessoas cuja visão perdura além do tempo e cujo trabalho só mais tarde é devidamente valorizado. O nosso mundo e o nosso país em particular são pródigos em exemplos desse reconhecimento post mortem. Infelizmente, assim era no passado e assim é numa época em que a internet esmagou muitos dos hábitos anteriores ao ponto de já não imaginarmos como seria possível vivermos sem ela. Quando qualquer um de nós organiza umas férias ou uma viagem de fim-de-semana é usual o recurso à internet para encontrar os melhores restaurantes, os melhores hotéis, as melhores sugestões culturais ou para conhecer melhor a História e a região para onde se vai.

É com certa regularidade que visito o site Alvalade.info que sempre se revelou um espaço de excelência na divulgação da História de uma localidade que tem motivos para se orgulhar do seu passado. Desde 2002 que Luís Pedro Ramos divulga o que de melhor existiu e existe na sua terra e são espaços destes que fazem falta um pouco por todo o lado. Sem sair do concelho de Santiago do Cacém, atrevo-me a dizer que mais nenhum site criado e gerido por um particular tem tanta qualidade e relevância. Gostaria a sede do concelho de ter algo semelhante que servisse de ponte entre o admirável passado e as oportunidades turísticas e culturais do presente. Essas funções têm sido, sabiamente, garantidas neste Alvalade.info, com uma qualidade muito acima da média e muitos furos à frente do que seria expectável tendo em consideração os meios e recursos existentes. Apenas a carolice, a dedicação, o trabalho de quem ama as suas raízes, as suas tradições e a sua História permitiram manter o projecto vivo e dinâmico ao longo de todos estes anos. A decisão, publicamente assumida pelo autor, de fechar as portas do Alvalade.info devia ser motivo de reflexão para muita gente. A região fica mais pobre e diminui a visibilidade de uma terra importante que este ano comemora 500 anos do Foral Manuelino.

Todos aqueles que vivem no século XXI e consideram que o progresso e a modernidade só podem beneficiar com a História e com a cultura de um povo sentem-se hoje mais tristes. Se ainda for possível espero que Luís Pedro Ramos não retire Alvalade.info do ar. O site é importante para Alvalade, para o concelho de Santiago do Cacém e para toda a região do Alentejo Litoral. Mesmo sem actualizações, continuaria a ser o mais eficaz e potente meio de divulgação da cultura, das gentes e da História de Alvalade.

6.11.09

O Atlântico ganhou asas



UMA MADRUGADA NA PRAIA DESERTA

A rádio ainda é emoção, novidade e feita com gente dentro. O Atlântico do último sábado foi um momento único quer para aqueles que fazem da rádio a sua profissão como para quem vai fazendo rádio, unicamente, por paixão.

Existem programas assim. O sucesso de qualquer emissão depende de vários factores, porém, quando se juntam os ingredientes certos somente se pode aguardar pelos resultados obtidos. Um novo álbum de originais de José Cid, uma música da autoria de Ulisses (natural de Santiago do Cacém e líder dos k2o3), a transmissão em exclusivo nacional da primeira versão (demo) dessa canção, as entrevistas a Cid e a Ulisses e os espaços habituais da navegação. O somatório de tudo isto em apenas duas horas de programa veio a originar o que se sabe. Num destes dias, ao início da noite, tive oportunidade de me encontrar com o Bruno Pereira que me mostrou uma pequena amostra das dezenas de emails recebidos na conta do Atlântico. Senti uma boa sensação, sobretudo num período menos glorioso da radiodifusão. A verdadeira sabedoria numa estação de rádio da dimensão da Miróbriga não é tentar combater as rádios nacionais de igual para igual, mas, estando conscientes das diferenças, conseguir elevar aquilo em que podemos ser diferentes. O programa em causa foi um bom exemplo do que pode fazer uma rádio local quando se sabe aproveitar as oportunidades. Uma rádio sem rasgo, sem feedback dos ouvintes, sem participação nas grandes questões da sociedade civil e sem causas é um órgão de comunicação condenado à morte. É fácil um mergulho no adormecimento e na letargia que conduzem ao final dos projectos. O mais complexo é reinventar o que existe e todos os dias procurar surpreender o auditório. Este Atlântico foi tudo isto quando apostou na qualidade, no ritmo, nos conteúdos e no elemento mágico chamado enigma. Durante uma semana, a curiosidade foi aumentando com a população a especular sobre quem seria o músico de Santiago do Cacém. Porém, no decurso do programa e logo após ser revelado o nome do compositor, surgiu outra novidade. Iria ser transmitida, em absoluto exclusivo, a primeira versão que José Cid gravara do tema composto por Ulisses. Tanto na rádio como noutro sector profissional, só com capacidade de inovação, profissionalismo e dedicação se conseguem resultados.

Esquecendo a minha participação, gravada numa sexta-feira tardia onde o cansaço da semana deixou a sua marca, este foi um programa que roçou a perfeição. O seu autor, Bruno Gonçalves Pereira, deu-nos uma nova demonstração da sua elevadíssima categoria profissional, que o catapultou, há mais de uma década, para os grandes grupos de comunicação social nacionais.

O programa encontra-se disponível para audição e aconselho-o a qualquer pessoa que aprecie José Cid, Ulisses (k2o3), música portuguesa ou que sinta curiosidade em ouvir uma emissão de rádio intemporal.



Clicar para escutar a 1ª hora.

Clicar para escutar a 2ª hora.

Em alternativa pode fazer o download do programa para o seu computador. Para tal deve posicionar o cursor do rato no link desejado e clicar com o botão direito escolhendo a opção "save target as..."ou "save link as..." dependendo do browser utilizado.

31.10.09

E o seu nome é...

Durante a emissão de hoje do Atlântico foi revelado o nome do autor da música "Madrugada na Praia Deserta", editada no novo álbum de José Cid. Chama-se Ulisses, é fundador dos k2o3, um compositor talentoso e um grande amigo que merecia uma carreira musical bastante diferente.

Aproveito para agradecer as várias felicitações que recebemos logo após o termo do programa. Também aproveito para declarar ter sido uma honra ter preparado esta emissão com Bruno Gonçalves Pereira - é sempre um prazer trabalhar com um amigo e profissional de eleição.

25.10.09

Quem terá sido?

Há um músico de Santiago do Cacém que compôs uma canção para o novo disco de José Cid!

"Madrugada na Praia Deserta" é já considerada a canção-surpresa deste trabalho! Num exclusivo da Miróbriga, vamos ficar a saber no Atlântico quem é este músico que participa no recente álbum "Coisas do Amor e do Mar".

No próximo sábado, a partir das 7 da tarde, tudo será revelado e o próprio José Cid estará presente.

O programa é conduzido por Bruno Gonçalves Pereira que me convidou para participar em estúdio em mais este momento alto do Atlântico e da Miróbriga.

Para abrir o apetite nada melhor do que escutar o promocional ao programa.

Na tabela divulgada hoje, o novo álbum de José Cid entrou para a 28ª posição do top de vendas oficial da AFP.

Clicar para escutar o promocional.

Este post foi actualizado no dia 28 de Outubro.

11.10.09

TAXI: Especial no Atlântico

Ontem passou no Atlântico um especial dedicado ao regresso dos Taxi. A conversa que mantive com Bruno Gonçalves Pereira foi longa e abordou o passado e o futuro desta histórica banda do rock português. O novo álbum de originais, "Amanhã", esteve igualmente em grande destaque.

Numa parceria com o Atlântico disponibilizamos em formato "compacto" o especial Taxi.

Clicar para escutar o compacto da emissão especial.

29.9.09

O Atlântico na Rua do Carmo

No sábado passado o Atlântico destacou o histórico concerto que os UHF deram no dia 19 de Setembro na Rua do Carmo. Além de entrevistas com os quatro elementos dos UHF tive uma longa conversa com o meu amigo e responsável pelo Atlântico, Bruno Gonçalves Pereira.
O Atlântico é transmitido aos sábados entre as 19h00 e as 21h00 na Miróbriga e numa parceria conjunta disponibilizamos em formato "compacto" a parte dedicada a este evento.

Clicar para escutar o compacto da emissão especial.

Em alternativa pode fazer o download do ficheiro para o seu computador. Para tal deve posicionar o cursor do rato no link desejado e clicar com o botão direito escolhendo a opção "save target as..."ou "save link as..." dependendo do browser utilizado.

24.9.09

k2o3 apresentam novo álbum

"NO FIO DA NAVALHA" HOJE NO MUSICBOX

Ulisses (voz e guitarra), Chaves (baixo), Mini (guitarra) e Nuno Costa (bateria) estão de volta às lides discográficas com o novo álbum intitulado "No Fio da Navalha". Um disco composto por 12 canções, vincadamente punk rock e fieis à linha musical que caracteriza a banda há 15 anos: curto e grosso, directo e sem maquilhagem. Os k2o3 tanto colocam o dedo na ferida de forma mordaz e irónica, como é exemplo o tema "Ovelha Negra", como também revelam uma atitude mais divertida, como acontece no tema "Namorada". É um disco muito radiofónico, repleto de potenciais singles, para cantar do princípio ao fim.

Alinhamento: Abismo, Lama, Ovelha Negra, À Espera de Nada, Namorada, Olhos nos Olhos, Beco Sem Saída, Faca, Miragem, Vira-lata, Mais ou Menos, Silêncio (instrumental).

Será uma grande noite de punk rock português com os convidados "Fábrica D' Brinquedos" e "Gazua". As portas abrem às 22h00 e os concertos começam às 22h15.

20.9.09

UHF esgotam Rua do Carmo

Fotografia de Francisco RosárioFoi a maior concentração popular desde o início da campanha eleitoral para as legislativas. Quando me aproximei escutei alguém perguntar se “estaria ali o Sócrates”. Não estava nem José Sócrates nem Manuela Ferreira Leite. Quem discursou nessa noite foi António Manuel Ribeiro que subiu ao palco com a determinação dos vencedores.

“Rua do Carmo” é um dos temas de maior sucesso na carreira dos UHF. Ontem, assisti a um concerto verdadeiramente histórico que juntou o Canal Maldito com a rua que cantam desde 1981. O espectáculo fez-me recordar outros eventos mágicos protagonizados por grandes grupos rock internacionais. Por cá, estes acontecimentos não são assim tão frequentes e congestionar aquela zona de Lisboa é, igualmente, raro. Na realidade, o resultado do concerto de duas horas dos UHF não podia ter sido mais surpreendente. Mesmo sem grande publicidade, a Rua do Carmo esteve repleta de fãs e de populares curiosos. Tanto uns como os outros, cantaram os temas do início ao fim num imenso e colectivo coro. Eu estava próximo do palco - fui furando desde a zona da loja da Ana Salazar - e, quando olhava para trás, só via pessoas de braços no ar, pelo que imagino o que terão sentido os músicos em cima do palco.
O alinhamento foi escolhido ao milímetro e as principais canções dos UHF que evocam Lisboa não foram esquecidas. Aliás, o alinhamento foi seleccionado com requinte. Todas as músicas foram sinónimo de rock, enquanto a poesia cortante de António Manuel Ribeiro fez o pleno entre sons e palavras.

Respirou-se um ar de revolução na zona da Baixa. Os músicos actuaram como se fosse aquele o último dia das suas vidas. Porém, o amanhã existe. E, a julgar pela amostra apresentada, o futuro promete ser risonho.

Foram três os novos temas tocados ontem. A versão “Vejam Bem” (José Afonso) e os inéditos “A última prova” e “Quero entrar em tua casa”. Qualquer um deles com imenso potencial a abrir o apetite para o próximo álbum de originais. “A última prova” é UHF vintage e “Quero entrar em tua casa” podia ser o primeiro single de uma nova banda.

Renato Gomes voltou a aparecer em palco para nos brindar com a excelência dos seus solos, enquanto António Côrte-Real, Fernando Rodrigues e Ivan Cristiano voltaram a provar todo o seu valor – se é que ainda precisam de provar alguma coisa. António Manuel Ribeiro estava, visivelmente, emocionado e sentia-se que a sua felicidade era enorme.

Com um alinhamento como o de ontem, fico na dúvida se algum dia assistira a um concerto de UHF tão bom como este. Pode parecer estranho, mas, sinceramente, não sei!

Que venha o próximo álbum o mais depressa possível e mais concertos com esta energia.

UHF - Rua do Carmo

Autoria: Paulo Reis

Fotos da multidão:

Fotografia de Maria José Freitas

Fotografia de Maria José Freitas



Alinhamento:
1 Rapaz caleidoscópio
2 Jorge morreu
3 Dançando na noite
4 Apetece namorar contigo em Lisboa
5 Na tua cama
6 A última prova
7 Matas-me com o teu olhar
8 Vejam bem
9 A noite inteira
10 Uma palavra tua
11 Cavalos de corrida
12 Geraldine
13 Sonhos na estrada de Sintra
14 Modelo fotográfico
15 Menino
.....
16 Noites lisboetas
17 Rua do Carmo
18 Quero entrar em tua casa
19 Menina estás à janela
.....
20 Matas-me com o teu olhar
.....
21 Hesitar

1.9.09

Noites Ritual 2009

A 18ª edição do festival “Noites Ritual” decorreu este fim-de-semana nos Jardins do Palácio de Cristal no Porto. As duas noites deste acontecimento ficaram marcadas por duas enchentes monumentais, o que demonstra que sucesso e qualidade são compatíveis quando nos referimos a música e a adesão popular. Apesar dos eventos musicais em Portugal primarem muitas vezes pelo inverso, ficou mais uma vez provado que nem sempre é necessário apostar em nomes que cobram cachets exorbitantes para que o público marque presença. As cerca de 10 mil pessoas que, em cada uma das noites, estiveram presentes deliraram com a diversidade do cartaz dos dois palcos. Deolinda, Blind Zero ou Mão Morta foram alguns dos nomes presentes.

Este festival descende da saudosa “Ritual”, revista em que cheguei a colaborar. Além do evidente êxito da iniciativa, poderemos assistir, em breve, a parte dos concertos através da MTV Portugal.

Ao contrário do habitual, este ano não levei gravador, mas, mesmo assim, tive uma conversa gravada com Pedro Brinca, o antigo director da “Ritual” e apresentador oficial do Festival. Em jeito de curiosidade, aqui fica uma improvisada conversa gravada em formato vídeo.

Uma palavra final para a sempre excelente organização e deixo daqui deste meu blogue um abraço amigo para o Carlos Vieira.

Para o ano, espero estar, de novo, no Porto para mais umas fantásticas “Noites Ritual”.